Confusão entre especialidades causa demora para chegar ao profissional adequado

Do Correio Braziliense

Se a perna quebrou, o paciente corre para o ortopedista. Se precisa fazer um check-up cardíaco, sabe muito bem a qual profissional recorrer. Ter certeza da especialidade médica adequada para levar os filhos pequenos também não é problema, assim como parece óbvio que o diagnóstico e o tratamento de uma miopia é feito pelo oftalmologista. Porém, nem sempre é fácil assim, e muita gente perde tempo e dinheiro pulando de consultório para consultório, até conseguir resolver seu problema. No Brasil, o Conselho Federal de Medicina reconhece 53 especialidades médicas, que vão da acupuntura à psiquiatria, passando por nomes pouco conhecidos, como nutrologia, nefrologia e hematologia.


“Há situações que realmente atingem duas especialidades, como a reumatologia e a ortopedia, que agem em uma linha fronteiriça. Assim como é tênue a linha entre esses ramos e a neurocirurgia, que faz a operação da coluna”, reconhece o presidente da Sociedade Brasileira de Clínica Médica, Antonio Carlos Lopes. Outro exemplo é a urologia e a nefrologia. Essa última é tão desconhecida que uma pesquisa da Fundação Pró-Renal constatou que apenas 5% da população procuraria um médico da especialidade caso estivesse com problema nos rins.

Presidente da fundação, o médico Miguel Riella tira a dúvida: “Ambas tratam do aparelho urinário, mas o nefrologista é o clínico e o urologista é o cirurgião. O urologista faz o transplante e o nefrologista cuida do transplantado depois”, exemplifica. Mesmo assim, ele afirma que nada impede que o urologista também possa diagnosticar e tratar de problemas não cirúrgicos, como uma infecção urinária, embora, em princípio, essa seja uma prerrogativa do nefrologista.

A mastologia é outro dos ramos pouco difundidos no país, devido à pequena quantidade de especialistas na área. De acordo com o diretor da Sociedade Brasileira de Mastologia, Roberto Vieira, são apenas mil médicos do ramo para atender a uma população de quase 200 milhões de habitantes. “As pessoas acabam recorrendo ao ginecologista”, constata. “O correto seria sempre procurar o mastologista quando há distúrbios nas mamas, mas não temos profissionais suficientes”, reconhece. Além do câncer de mama, essa especialidade é a indicada para outras alterações, como quistos benignos, inflamações e displasias.

Clínicos
De acordo com Antonio Carlos Lopes, para evitar confusão sobre qual consultório procurar, o primeiro especialista que deve ser acionado pelo paciente é o clínico “bem informado”, como faz questão de ressaltar o médico. Lopes, que é autor de diversos tratados de medicina e também professor da Universidade Federal de São Paulo, diz que, pela experiência profissional, pode afirmar que 80% das queixas dos pacientes podem ser resolvidas pelo clínico. Nos demais casos, é feito o encaminhamento para outras especialidades. “A diferença é que o clínico não pode fazer os procedimentos. Ele pode tratar bem uma doença renal, mas não pode fazer a diálise”, diz. “Para dar um exemplo, pense em uma pessoa que sente dor no peito que se estende pelo braço. Qual o primeiro médico que ele vai procurar? O cardiologista. Então faz exames, não dá nada, e vai para o neurologista porque o braço adormeceu. Não resolve e vai para o reumatologista e depois para o ortopedista. Perde tempo e dinheiro, sendo que o clínico poderia tratá-lo ou encaminhá-lo para o melhor especialista”, afirma.

Para o presidente da SBCM, isso é uma questão cultural. “Uma total inversão de valores. Em um país subdesenvolvido como o Brasil, as pessoas correm atrás do mais difícil, em vez do meio mais fácil. E aí quem entra em ação? O ‘doutor Google’. A pessoa procura os sintomas na internet e já acha que sabe bem a quem recorrer”, critica. Segundo ele, esse é um problema para os próprios especialistas, que estudam muitos anos um determinado ramo para se dedicar integralmente a ele e acabam perdendo tempo com pacientes que não precisariam atender. Enquanto isso, deixam de cuidar das pessoas que realmente necessitam daquela especialidade.

Antonio Carlos Lopes também ressalta que a má distribuição dos profissionais pelo país faz com que os clínicos necessitem conhecer bem todas as especialidades médicas, de forma a não deixar a população desassistida. Enquanto nas capitais é possível encontrar especialidades diversas, basta se afastar um pouco para que a população conte com um número bem reduzido de médicos. Dessa forma, a maioria dos problemas vai parar nas mãos dos clínicos. “Por isso, é importante investir na formação desses profissionais e ter um intercâmbio maior de informações entre os especialistas e os clínicos”, afirma.