Brasil só investe 2% dos recursos na área da saúde mental

Antônio Geraldo da Silva pres. ABP

O Brasil investe menos de 2% dos recursos da saúde em tratamento mental, enquanto o Canadá destina 11%. E das dez principais causas de incapacitação no trabalho, cinco são por doença mental – depressão maior, abuso de álcool, esquizofrenia, distúrbio bipolar e transtorno obsessivo-compulsivo. Os dados foram apresentados pelo psiquiatra Antônio Geraldo da Silva, no painel “A Visão da ABP sobre Assistência em Saúde Mental”, durante o ClasSaúde, realizado dia 25 de julho, em São Paulo.

Além da falta de recursos, Antônio Geraldo fez críticas ao modelo de assistência à saúde mental no Brasil,centrado apenas nos CAPs, que continuam atendendo sem médicos. “É aceitável quando a função do CAPs é apenas reabilitação, mas inconcebível quando é preciso tratar doentes mentais graves”, disse Antônio Geraldo. “Chamar o doente de usuário mascara uma realidade, é negar que são doentes, é não assumir que as doenças mentais são, de fato doenças, é uma justificativa para negar tratamento médico especializado, pois são apenas usuários de serviços e não pessoas que padecem de doenças”, disse o presidente da ABP, ao criticar a desassistência em saúde mental no Brasil.

Antônio Geraldo chamou de“ambulancioterapia”, a forma como o doente mental vem sendo tratado no Brasil, ou seja, o doente perambula dentro de ambulâncias, em busca de atendimento médico. “É necessário manter o paciente onde ele mora, e para isso são necessários ambulatórios com tratamentos adequados, além dos CAPs, é preciso trabalhar toda a rede”.

O presidente da ABP fez um balanço dos primeiros cinco meses à frente da entidade, que tem buscado junto aos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário uma melhoria de atendimento em prol do doente psiquiátrico. “Já estivemos na Câmara, no Senado, no Conselho Nacional do Ministério Público, OAB  e na Anvisa, além de reunirmos com os secretários de saúde de São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. “Somente assim vamos ter resultados benéficos, para que o pobre tenha atendimento digno. Precisamos acabar com o fosso entre a atividade privada, onde fazemos psiquiatria de primeiro mundo e o SUS, de terceiro mundo, com exceção a algumas ilhas de excelência, como nos hospitais universitários”, destacou o presidente.

Durante a palestra, Antônio Geraldo lembrou que o Governo Federal ainda insiste em manter longe dos doentes mentais o uso da eletroconvulsoterapia (ECT), apesar de sua eficácia ter sido comprovada cientificamente e aprovada por literatura internacional e avaliado pelos psiquiatras como importante instrumento no tratamento dos doentes. “Ainda assim, o ECT continua sendo execrado pelo Programa Nacional de Avaliação dos Serviços Hospitalares que classifica como “ruim” um serviço que utiliza ou prescreve ECT como tratamento”, sendo que o próprio Ministério da Saúde indica a ECT como o melhor tratamento em alguns casos e enaltece sua importância na prática clínica diária.

Enquanto não se melhora o tratamento e se coloca um fim aos leitos hospitalares especializados sem que haja uma alternativa aos doentes mentais, destacou, os presídios brasileiros tornaram-se os novos manicômios. Dos 494 mil presos no Brasil, pesquisas indicam que, pelo menos 60 mil são doentes mentais graves. “É preciso fazer algo urgente”! concluiu.