Nova droga antimelanoma dá sobrevida a pacientes com câncer

Descoberta nova droga contra melanomas

Um estudo publicado no The New England Journal of Medicine e apresentado no fim de semana na 47ª Conferência da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (realizada em Chicago, nos Estados Unidos) mostra como uma nova droga, o vemurafenibe, consegue reduzir em até 63% o risco de morte de pacientes com melanomas (tipo de câncer de pele) malignos já com metástase e que tenham um determinado gene identificado nas biópsias. O remédio neutraliza a ação do oncogene Braf com mutação V6000E e amplia a sobrevida dos atingidos, dizem os pesquisadores.
O tratamento com o vemurafenibe (em comprimidos) ainda não foi aprovado pela Foods and Drugs Administration (FDA, a Anvisa dos EUA), mas o Laboratório Roche já deu entrada nos papéis pedindo a aprovação do órgão para subsequente comercialização. Participaram da pesquisa 675 pacientes com melanomas metastáticos (que já atingiram outros órgãos). Metade foi tratada com o vemurafenibe e a outra metade com a droga da quimioterapia convencional, a dacarbazina. Após seis meses de acompanhamento dos pacientes que utilizavam a nova droga, 84% permaneciam vivos, número significativamente superior aos 64% tratados com quimioterapia convencional.
“Os resultados obtidos a partir de um teste clínico de fase 3 comparando o PLX4032 (vemurafenibe) com a quimioterapia tradicional apontam realmente um grande avanço no tratamento do melanoma”, disse Paul Chapman, do Memorial Sloan-Kettering em Nova York, centro de câncer que liderou a pesquisa. “Esse é o primeiro tratamento eficaz para o melanoma dirigido a pacientes portadores de mutações genéticas específicas no tumor e poderá ser uma das duas únicas terapias para prolongar a sobrevivência dos pacientes com um melanoma avançado”, acrescenta Chapman, numa referência ao anticorpo monoclonal ipilimumabe, da Bristol-Meyers Squibb, aprovado em março pela FDA.
Para o diretor do Instituto do Câncer de São Paulo (Icesp), Paulo Hoff, a droga prolonga o controle da doença, mas não significa a cura. “É preciso muitos anos de observação de pacientes para definir-se com segurança a exata importância de determinados tratamentos”, pondera o oncologista, que também dirige a Divisão Oncológica do Hospital Sírio-Libanês. “Tivemos duas conquistas fundamentais no estudo e no tratamento de melanomas nos últimos dois anos. Um é o ipilimumabe e o outro é vemurafenibe.”

A doença
O melanoma maligno, quando se torna metastático e atinge outros órgãos, é uma neoplasia de prognóstico complicado. “Poucos pacientes com esse grau de acometimento conseguem sobreviver por mais que cinco anos, mesmo com os tratamentos atualmente empregados”, explica o oncologista Alessandro Leal. Daí a importância de se aprofundar o conhecimento genético da doença para que os tratamentos sejam cada vez mais personalizados, destaca. Para o oncologista Gustavo Fernandes, o vemurafenibe vai mudar a maneira de tratar melanoma e chega para reafirmar a tendência mundial das terapias personalizadas. “É a melhor droga que produziram até hoje para tratar melanoma e tem a vantagem de o médico saber previamente quem deve ou não tomar o remédio”, afirma.
Alessandro Leal analisa que um achado como esse tornará o tratamento da doença cada vez mais individualizado. “Não somente para esse tipo de câncer. O estudo mostra que é possível aumentar a sobrevida global dos pacientes, com melhor qualidade de vida e menos efeitos colaterais.” Mas o vemurafenibe não é isento de reações adversas. No estudo de Chapman, 38% dos pacientes necessitaram de redução da dose padrão para tolerar o tratamento por um período mais prolongado. Dores articulares, erupções cutâneas, fadiga, alopécia (perda de cabelos), náusea e diarreia são alguns dos efeitos colaterais. A mutação do Braf está presente em outros tipos de tumores, como os de ovário, cólon e pulmão. O estudo mostrou que, além da redução de 63% do risco de morte, a droga provocou 74% de diminuição de progressão da doença. “Essa droga parece promissora para pacientes com melanoma metastático, e funciona como um alento, já que existem pouquíssimas terapias ativas em melanoma, apesar de os estudos não mostrarem cura”, comenta o oncologista Anderson Silvestrini, do Grupo Acreditar