Especialista alerta para o papel da mãe na proteção contra o câncer do colo do útero

Presidente da Comissão de Vacinas da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) destaca também a importância da vacinação para mulheres acima dos 26 anos

A proteção contra o câncer do colo do útero, um dos mais letais da atualidade, deve fazer parte da rotina de uma família. Neste ano, o Brasil avançou na prevenção da doença, por meio da vacinação gratuita oferecida pelo Governo para meninas entre 11 e 13 anos. Mais do que orientar e preservar a saúde das filhas, as mães precisam estar atentas para a própria proteção contra o problema. Isso porque as mulheres mais velhas, independentemente da idade e do estado civil, desde que tenham vida sexual ativa, também podem e devem se imunizar contra o câncer do colo do útero, que, segundo o Inca, registra 18 mil casos novos por ano no Brasil. A ginecologista Nilma Neves, presidente da Comissão de Vacinas da Febrasgo, alerta sobre as principais dúvidas que envolvem o câncer do colo do útero:

1) Qual é a importância da mãe para a vacinação dos filhos, especialmente das meninas no caso do câncer do colo do útero?

Nilma Neves –
Em primeiro lugar, é importante ressaltar que a vacinação é um dos mecanismos mais eficazes para se evitar doenças impactantes em todas as fases da vida. No caso do câncer do colo do útero, a mãe tem um papel especial. Ela é uma das responsáveis por levantar a questão, orientar e incentivar a filha sobre a importância da imunização. Mais do que isso, a mãe também pode e deve dar o exemplo prático, buscando a própria vacinação contra o câncer do colo do útero, mesmo que não tenha o feito na infância. O Brasil oferece, desde junho do ano passado, por meio da rede privada, imunização para as mulheres acima dos 26 anos, sem limite de idade.

2) Por que a vacina para prevenção do câncer do colo do útero é importante?

NN – A vacina é a principal ferramenta de prevenção da doença, que é um dos poucos tipos de câncer que efetivamente pode ser prevenido. Um número alarmante desperta nossa atenção: a cada dois minutos, uma mulher morre de câncer do colo do útero no mundo. No Brasil, estimativas do Inca apontam que pelo menos, 18 mil novas mulheres desenvolvem a doença todos os anos. Destas, quase cinco mil morrem em decorrência da enfermidade.

Além disso, 90% dos cânceres causados por HPV em mulheres são de câncer do colo do útero, que já é a quarta causa de morte entre mulheres e o segundo tipo de câncer mais prevalente entre as brasileiras, atrás apenas do de mama.

Estudos clínicos em todo o mundo, demonstram que os HPV’s de alto risco são duas vezes mais frequentes que os de baixo risco e que mulheres infectadas com os tipos 18, 31, 33 possuem risco 50 vezes maior de desenvolverem lesões malignas, enquanto que nos casos da infecção pelo tipo 16, este número sobe para 100 vezes mais.

3) Quem já foi infectada pelo HPV uma vez pode se infectar novamente?

NN – Sim, pois há mais de 100 diferentes tipos de HPV. Destes, porém, somente 15 aproximadamente são considerados de alto risco para o desenvolvimento do câncer do colo do útero. A vacina protegerá dos tipos específicos da sua indicação e os de proteção ampliada, quando houver, mas não aos demais. Por isso, é importante fazer uso do preservativo em todas as relações sexuais e realizar os exames preventivos como Papanicolaou e a Colposcopia.

4) Todas as mulheres infectadas por HPV irão desenvolver câncer do colo do útero?

 NN – Não. Toda mulher que tem câncer do colo do útero tem HPV, mas nem toda mulher que tem HPV tem câncer. Em cerca de 80% dos casos, a infecção regride espontaneamente, sem evoluir para infecção persistente. Porém, quando não ocorre esta regressão e o diagnóstico não acontece de forma precoce, a infecção persistente pode levar ao câncer.

5) Qual é o tempo de eficácia da vacina?

 NN – Estudos comprovam eficácia de oito a nove anos da vacina. Há novas pesquisas em andamento avaliando a ampliação para até 12 anos. Contudo, é preciso mais tempo para se chegar a esta confirmação.

6) A vacina auxilia no tratamento da lesão ou câncer do colo do útero?

NN – Não, a vacina é apenas uma medida de prevenção de novas infecções e, consequentemente no desenvolvimento de lesões que levam ao câncer do colo do útero.

7) Existe algum risco para quem já se infectou com HPV ou já foi tratado por lesões no colo do útero ser vacinado?

NN – Não. Existem algumas evidências científicas, inclusive, que apontam pequeno benefício em vacinar mulheres previamente tratadas, que poderiam apresentar menos recidivas. A decisão deve ser tomada individualmente com o médico da paciente.

8) A vacina contra HPV pode levar ao câncer do colo do útero?

NN – Não, a vacina que protege contra o câncer do colo do útero é a chamada recombinante. Isso significa que ela não possui um vírus vivo e, por isso, não é infecciosa.

9) Além do HPV o câncer do colo do útero tem outras causas? Neste caso, a vacina tem eficácia?

NN – O HPV está relacionado com praticamente 100% dos casos de câncer do colo do útero. Por isso, a vacina se torna tão importante em sua prevenção.

Outros fatores de risco também são importantes para o desenvolvimento da doença: tabagismo, sistema imunológico baixo, ter muitos filhos, precocidade da idade materna no primeiro parto, uso em longo prazo de contraceptivos hormonais, fatores relacionados à dieta e ainda a associação de outras infecções de transmissão sexual sendo a Chlamydia Trachomatis e o vírus herpes simplex as mais citadas.

*Com informações da Febrasgo