Ficar mais de 4 horas por dia jogando na internet pode sinalizar quadro psiquiátrico grave. Brasileiros estão na linha de risco

Médica psiquiatra explica os indícios de quem passa horas na internet jogando e como lidar para evitar compulsão por jogos, um problema que pode trazer prejuízos severos para a saúde

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Candy Crush, Diamond Dash, City Ville e Farm Heroes Saga. Os jogos online são alguns dos bem conhecidos por quem gosta de participar da aventura digital. Mas os games divertidos na internet podem trazer sérios perigos à saúde, principalmente a mental. “Quando se perde a noção do tempo gasto no jogo, o abandono de outros interesses, a piora nos relacionamentos sociais e familiares, baixo rendimento escolar ou no trabalho, aparecimento de problemas clínicos, falta de autocuidado (higiene pessoal e sono) pode caracterizar o que chamamos de dependência ou compulsão por jogos”, esclarece a psiquiatra Carla Bicca, do Centro de Atendimento Especializado em Dependência Química e outros Comportamentos Adictivos, Villa Janus, em Porto Alegre.

A médica alerta para as situações de risco de adicção entre os adolescentes brasileiros com grande exposição a internet, conforme pesquisa realizada pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), que comprova que os jovens brasileiros têm passado muito tempo em frente à tela do computador. Através de questionário aplicado online com indivíduos de 18 a 25 anos constatou-se que o tempo médio de horas jogadas semanalmente foi de 15 horas. Alguns dos participantes da pesquisa informaram jogar cerca de 30 horas por semana – o equivalente a quase 4h30 ao dia.

Carla Bicca afirma que é crescente o número de pessoas que têm problemas com os jogos, especialmente os adolescentes. “No geral os meninos ficam mais horas em frente ao computador”. Para a psiquiatra, quando o jogo se torna mais importante que outras atividades essenciais para a sobrevivência, como as relações interpessoais e a alimentação, é sinal que é preciso buscar ajuda especializada. “Na maioria das vezes as pessoas não se dão conta, pois estão muito envolvidas com os jogos e deixam de realizar tarefas importantes para a vida”, diz a especialista no assunto.

Hora de desconectar – Identificar quem tem compulsão por jogos não é tarefa fácil. Não basta apenas apontar quem passa muito tempo logado. De acordo com Carla Bicca, a primeira dica é avaliar se existem queixas na ausência do jogo. “Se a pessoa começar a ficar irritada, triste, ansiosa e agressiva porque não está jogando, ter dores de cabeça e no corpo, podem ser sintomas de abstinência, e isso configura a necessidade de uma avaliação especializada”, detalha.

Na lista dos indícios de quem é compulsivo por jogos inclui: a invenção de situações para poder jogar – onde a mentira se torna habitual, a má postura e problemas de visão em razão da exposição excessiva em frente ao computador. “Algumas pessoas podem ter transtornos associados, como a psicose ou o uso de substâncias (medicamentos/drogas), por isso, é bom avaliar os sinais para que a intervenção seja precoce”, afirma Dra. Carla.

Como lidar – A sugestão da psiquiatra é ter atenção ao adolescente, definir um tempo para jogar, o tipo de jogo permitido, avaliar o envolvimento com outras atividades e amizades para prevenir o desenvolvimento de problemas de saúde física e mental. “É preciso evitar os jogos violentos, sempre que possível. É preciso cumprir uma atividade de lazer e o jogo deve ser um adicional, e não o principal. Pessoas expostas a internet por várias horas têm o risco de apresentarem doenças psiquiátricas como depressão, transtorno de ansiedade, fobia social, dependência química, entre outros.

Normalmente, o tratamento para compulsão de jogos, sem comorbidade com outros transtornos, não precisa de medicação. De acordo com Carla Bicca, a atenção familiar é de extrema importância, pois é necessária uma mudança de estilo de vida que envolve planejamento com professores e amigos. “Essa mudança leva tempo e requer envolvimento de todos. No início do tratamento, a proibição de jogar deve ser avaliada e pode ser parcial ou total, depende do caso”, finaliza.