Endometriose na Adolescência – por Frederico Corrêa

A endometriose é uma doença ainda enigmática que acomete cerca de 10% a 15% das mulheres no período reprodutivo. Caracteriza-se pela presença de tecido endometrial fora da cavidade uterina, mais frequentemente no peritônio pélvico, nos ovários, trompas, ligamentos útero-sacros, fundo de saco posterior e útero. Mulheres com dor pélvica crônica e infertilidade tem maior prevalência da doença podendo chegar a 50% dos casos em alguns estudos.

IMG_3308A determinação da prevalência da endometriose na população feminina adolescente é difícil. Diversos estudos tem mostrado prevalência elevada da doença em adolescentes com dor pélvica crônica variando de 19% a 73% dos casos. Outros trabalhos mostraram que 50% a 70% das adolescentes com dor pélvica crônica que não apresentaram melhora dos sintomas após o uso de antiinflamatórios não hormonais ou contraceptivos hormonais combinados tinham endometriose à laparoscopia. Dados da Endometriosis Association suportam que cerca de 66% das mulheres adultas com endometriose referem inicio dos sintomas antes dos 20 anos de idade7.

Os principais sintomas relacionados a endometriose na adolescência são a dismenorréia, a dor pélvica cíclica e acíclica, a dispareunia e os sintomas intestinais e urinários.

O diagnóstico deve ser baseado nos achados de história clínica e do exame físico. Os exames complementares de imagem como a ultrassonografia pélvica e a ressonância magnética são pouco úteis nos casos de endometriose superficial. Cerca de 12% a 20% das adolescentes com endometriose apresentam lesão profunda à laparoscopia. Os marcadores tumorais como o CA 125 tem baixa acurácia no diagnóstico da doença nestas pacientes. A laparoscopia com visualização das lesões e biópsia para confirmação histopatológica ainda são os procedimentos de escolha para o diagnóstico definitivo da endometriose.

Um dos aspectos mais importantes relativos ao diagnóstico da endometriose é o tempo decorrido entre o início dos sintomas e a confirmação da doença. Dados dos Estados Unidos e do Reino Unido mostram que este lapso de tempo é em média de 11,7 anos e de 7,9 anos respectivamente nos dois países. Estudo brasileiro demonstrou que este tempo no Brasil é em média de 7,0 anos, entretanto quando os sintomas se iniciaram antes dos 20 anos de idade este intervalo de tempo foi de 12,1 anos. Estes estudos mostram que maior atenção deve ser dada às adolescentes com sinais sugestivos de endometriose pélvica. Alguns fatores são citados na justificativa para esta demora tais como: Falta de familiaridade com as alterações menstruais, a idéia geral que as menstruações são dolorosas, ao fato das adolescentes serem menos convincentes e incisivas ao relatar sintomas, aos médicos que consideram a dismenorréia um evento normal mesmo após uso de analgésicos e ACHO.

O tratamento preconizado da endometriose é a ressecção cirúrgica das lesões preferencialmente pela laparoscopia. Entretanto, alguns defendem que o tratamento empírico com medicamentos como os antiinflamatórios, os anticoncepcionais orais combinados, os progestágenos orais e de depósito e até mesmo os análogos agonistas do GnRH pode ser utilizado nestas pacientes jovens. A recorrência dos sintomas e das lesões de endometriose ocorrem em 16% a 50% dos casos em até 12 meses. Há, por isso, uma enorme preocupação com as re-operações frequentes a que estas mulheres são submetidas.

O Colégio Americano de Obstetrícia e Ginecologia (ACOG) publicou em 2005 uma opinião de comitê sobre endometriose na adolescência na qual foi sugerido um protocolo de avaliação e tratamento de adolescentes com dor pélvica e endometriose que continua sendo reportado pelos trabalhos mais recentes sobre o tema.

Prof. Dr. Frederico José Silva Corrêa