Diagnóstico precoce é essencial para a cura do câncer de colo de útero

uteroJaneiro é o mês de Conscientização e Combate ao Câncer de Colo de Útero e embora muitas sejam as ações no País contra a doença, ela continua, de acordo com o Instituto Nacional do Câncer (INCA), como o terceiro tumor mais frequente entre as mulheres. Para entender mais sobre a importância da detecção precoce da doença, a redação do Médicos na Mídia conversou com os ginecologistas e obstetras Ivan Malheiros e Volnei Paulino, da Associação Médica de Brasília (AMBr).

 

Confira a entrevista:

– Quais os tipos de exames ginecológicos possibilitam a detecção precoce do câncer de colo de útero, já que é uma doença que não costuma apresentar sintomas?

dr-ivanDr. Ivan Malheiros –  O exame citopatológico conhecido como Exame de Papanicolau, ao realizar o estudo ao microscópio por um médico especialista, das células que são colhidas da superfície do colo do útero na mulher, exame este conhecido popularmente como “O preventivo”, é a maneira mais antiga e usualmente realizada para o diagnóstico inicial do câncer do colo do útero. Deve-se ressaltar porém que o diagnóstico definitivo só pode ser oferecido através a coleta de fragmento de tecido do colo uterino da área suspeita. Esta coleta de fragmento de tecido chama-se biópsia. E esta biópsia somente é realizada em casos específicos em uma franca minoria das vezes.  Outro exame importante que auxilia no diagnóstico do câncer do colo do útero é o exame conhecido como Colposcopia que é a realização de uma visão direta do colo uterino através de um aparelho específico chamado de Colposcópio. O Colposcópio possui a capacidade de oferecer ao médico examinador a imagem de grande aumento e digitalizada que amplia a capacidade de detectar lesões suspeitas.  Pode-se aplicar testes específicos durante a colposcopia que aumentam e muito a capacidade de pesquisa do câncer do colo uterino desde as suas fases mais precoces.  Desde até os pequenos sinais de lesões consideradas altamente precursoras do câncer do colo do útero.  Algo muito precoce na detecção do câncer. Outro exame útil é a pesquisa do vírus do HPV, que na verdade é um agrupamento de quase cinquenta tipos de vírus que entre este grupo existem quatro tipos de vírus considerados de alto risco de virem a desencadear as alterações no DNA das células do colo uterino e desta forma vir a dar início ao câncer. Os tipos de vírus de alto risco são dos de número 6, 11, 16 e 18. As pacientes nas quais estes vírus são localizados através de teste chamado de Captura Híbrida para Pesquisa do HPV, que é colhido pelo médico no colo do útero das mulheres. Nas pacientes, nas quais se detecte o vírus do HPV,  os protocolos de segurança recomendam a atenção especial na pesquisa através de colposcopia, citopalotogia e se necessário, biópsia em períodos regulares.

– A principal causa da doença é o HPV? Na sua opinião, como os médicos devem abordar e explicar as mulheres sobre a importância do sexo seguro?

Dr. Ivan Malheiros – As pesquisas ainda não tem claramente qual é a principal causa, pois ainda não se conhece quais são todas as causas, mas a presença do vírus do HPV, especialmente dos quatro tipos citados acima, está correlacionado e comprovado através de meta-análises publicadas na literatura médica, que é um fator muito importante. É necessário porém se explicar que apenas uma minoria, cerca de seis por cento das portadoras do vírus, desenvolverão efetivamente o câncer do colo útero. Desta forma pesquisa-se a presença do vírus e das lesões precursoras em todas as mulheres para proteger aquelas que desenvolverão o câncer. Não temos como pré determinar entre as portadoras do vírus, inicialmente, quais desenvolverão o câncer.A abordagem deste tema deve ser sempre ser realizada de forma serena e técnica, sem alarmismos ou estresse desnecessário. O conceito de sexo seguro, quando entendido de forma mais ampla, não significa apenas o uso do condon (a camisinha), mas sim a responsabilidade mútua e reciprocidade contínua entre o casal com a saúde de ambos. O que nos leva a outra questão que é quando e como o casal conversa entre si quando um ou outro descobre que é portador do vírus? No meu entender, conversa também de maneira serena e franca, pois ficará claro que ambos passarão a necessitar do olhar atento do especialista na pesquisa e controle das lesões de risco para o câncer do colo útero. Lembre-se que o vírus do HPV também está relacionando com o desencadeamento do câncer de pênis no homem, embora este desencadeamento do homem seja bem mais raro do que na mulher.

– Quais as chances de cura da doença quando diagnosticada em fases iniciais?

dr-volneiDr. Volnei PaulinoOs principais fatores que afetam o prognóstico no tratamento do câncer de colo uterino são o estadiamento, o comprometimento de linfonodos, o volume do tumor, a profundidade de invasão do estroma cervical e o grau e tipo histológico. Considera-se o câncer de colo do útero em estágio inicial, quando ele está no estágio zero, que de acordo com a classificação da Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia é o Tis, N0, M0. Tis significa que as células neoplásicas são encontradas apenas na superfície do colo do útero. N0: a neoplasia não se disseminou para os linfonodos próximos. M0: o câncer não metastatisou para os linfonodos, órgãos ou tecidos distantes. As taxas de sobrevida em 5 anos para mulheres com câncer de colo uterino no estadiamento zero é de cerca de 93%. É importante lembrar que essa taxa de sobrevida de 5 anos é uma forma utilizada pelos médicos para discussão do prognóstico de um paciente. Muitas pacientes vivem muito mais tempo e muitas, nesse estágio, são curadas.

Que fator protetivo as vacinas contra a HPV possuem? A recomendação é que seja seguido o calendário do SUS e que mesmo sem o início da vida sexual as meninas se protejam?

Dr. Volnei Paulino – Os HPVs que mais estão relacionados ao câncer são os tipos 16 e 18 e estão presentes em 70% dos carcinomas escamosos. São seguidos pelos tipos 31, 33, 45, 52 e 58, totalizando 89% dos cânceres epiteliais.  Há relatos de que após 2 anos do início da atividade sexual, 50% das mulheres já apresentam teste positivo para a presença do DNA de HPV. O uso do condon (preservativo) proporciona uma proteção relativa porque o dispositivo recobre apenas a região peniana. Áreas genitais não cobertas ficam desprotegidas e, além disso, pode ocorrer contaminação através dos digitais e boca. Contudo o seu uso é muito estimulado, porque também é um meio muito importante na prevenção de outras doenças sexualmente transmissíveis. A vacinação contra o HPV representa a melhor forma de prevenção primária. O ideal seria que todos os indivíduos, homens e mulheres tivessem acesso a esta vacina antes do início sexual, onde ela seria efetiva em 100% contra os HPV contidos nas vacinas. No Brasil existem dois tipos de vacina contra o HPV: a bivalente (HPV 16 e 18) e a quadrivalente (HPV 6, 11, 16 e 18). Está previsto para breve, a vacina nonavalente que englobará nove tipos de HPV (6, 11, 16, 18, 31, 33, 45, 52 e 58). Essas vacinas são seguras e têm efeitos colaterais mínimos. No nosso país, a aplicação do calendário vacinal fornecido pelo governo, engloba meninas de 9 a 13 anos, e, no ano de 2017, foram incluídos os meninos de 12 a 13 anos. São aplicadas duas doses, sendo a segunda, 6 meses após a primeira. Os portadores da imunodeficiência humana recebem 3 doses: a segunda, 60 dias depois da primeira e a terceira, após 6 meses da primeira aplicação, isso na faixa etária de 9 a 26 anos.

– No geral, quando deve-se começar a procurar um ginecologista para fazer um acompanhamento?

Dr. Volnei Paulino – Geralmente, assim que a menina tiver a menarca, que é a primeira menstruação. Ela ocorre habitualmente entre 10 e 14 anos.