paciente psiquiatrico

Pacientes psiquiátricos à espera de um novo endereço

O raciocínio é lógico: “O hospital não vai fechar. Se fosse fechar, não teriam feito obras”. A conclusão é de Reginaldo da Silva Lopes, interno da clínica psiquiátrica Dr. Eiras, em Paracambi, na Baixada Fluminense. Ele é um dos 157 doentes que passarão a viver do outro lado do muro do hospital – que ganhou cercas novas, para isolar os pavilhões já desativados, obra citada por Reginaldo -, mas que ainda esbarram na falta de vagas nas residências terapêuticas, previstas pela reforma manicomial.

A nova casa, no entanto, não será a garantia de acolhimento para Reginaldo. De acordo com a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), o paciente poderá engrossar as estatísticas de ex-internos que trocaram os hospitais pelas ruas. Pesquisa promovida pela Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública aponta que 44% da população de rua de Salvador têm transtornos mentais. No Rio, são 22,3%.

– Com o fechamentos dos hospitais, nem todos os pacientes encontram o tratamento ideal em outros locais. Muitos não têm família e vão para as ruas. O índice de população de rua com problemas mentais está alto – diz a coordenadora do estudo, Milena Pondé.

O mesmo alerta é feito pelo presidente da ABP, Antônio Geraldo da Silva, que aponta a lentidão na implantação das residências terapêuticas e dos Centros de Atenção Psicossocial (Caps), que atendem a ex-internos:

– Em Minas Gerais, cerca de 60% dos ex-internos de hospitais psiquiátricos passaram a viver nas ruas. Eles não conseguiram continuar o tratamento. Isso implica também no aumento do número de atropelamentos, da violência contra mulheres com problemas psiquiátricos e das mortes. Hoje, o Ministério da Saúde só trabalha para fechar leitos, independente do que aconteça com os pacientes.

Segundo o Ministério da Saúde, dos 120 mil leitos psiquiátricos disponíveis em 2000, restaram cerca de 36 mil. São Paulo concentra o maior número de vagas pelo Sistema Único de Saúde (SUS): 12.300. O Rio de Janeiro está em segundo, com 6.722, seguido por Paraná, 2.803, e Pernambuco, 2727. Foram criadas 564 residências terapêuticas – onde moram de cinco a oito ex-internos em cada – e 152 estão em fase de implantação. Vivem nas casas 3.062 doentes mentais, que recebem benefícios do governo para custeio de despesas.

Por determinação do Ministério Público Federal, a Clínica Dr. Eiras deveria ter encerrado as atividades em 30 de outubro. Administrada pelo município – inaugurado em 1962, o hospital sofreu intervenção em 2004 por causa de maus tratos aos pacientes e condições precárias de higiene -, a clínica não consegue concluir as transferências por falta de casas terapêuticas nos municípios de origem dos doentes. O diretor administrativo, Fernando José Gonçalves, explica que ainda há pacientes internados do Rio, Nova Iguaçu, Belford Roxo, Duque de Caxias, Magé, São João de Meriti, Petrópolis e de Belém do Pará.

– Só fazemos a transferência com a garantia de que o paciente vai se adaptar. Caso contrário, correm o risco de morrer. Temos seis doentes que precisam de ajuda para se alimentar, um deles só usa mamadeira. São pacientes que necessitam de acompanhamento especial – explica o diretor médico, João Paulo Marques Fernandes.

Fonte: O Globo